Monday, August 07, 2006

Dostoievski

Tomando um café preto, pensando na vida, pesquisando na Internet.
Andei lendo Dostoievski nos últimos meses. Tinha lido O Crocodilo, mas não tinha fall in love. Então li Crime e Castigo e entendi... Há duas semanas li O Jogador e numa espécie de posfácio tem um conto dele chamado O Sonho de um Homem Rídiculo que é simplesmente perfeito. Deixo ele aqui, pra quem tiver vontade de ler. Pena não ter encontrado na íntegra.

"Eu sou um homem ridículo. No momento dizem que estou louco. Seria um título excelente, se para eles eu não permanecesse nada mais que ridículo. Mas, de ora em diante não me zango mais, todo mundo é assaz gentil para comigo, mesmo quando caçoa de mim, e, dir-se-ia, mais gentil ainda naquele momento. Eu riria de bom grado com eles, não tanto de mim mesmo, quanto para lhes ser agradável, se não sentisse tal tristeza ao contemplá-los. Tristeza de ver que não conhecem a verdade, esta verdade que só eu conheço. Como é duro ser o único a conhecê-la! Porém, eles não compreenderão. Outrora, eu sofria muito por parecer ridículo. Não parecia, era. Sempre fui ridículo e sei que o sou, de nascença. Acho que tinha apenas sete anos, quando soube que era ridículo. Em seguida, estudei na Universidade - e quanto mais estudava, mais sabia que era ridículo. De maneira que toda a minha ciência universitária parecia não existir senão para me provar e me explicar, à medida que a aprofundava, que eu era ridículo. Aconteceu na vida como na ciência. De ano para ano, adquiri cada vez mais certeza de que, sob todos os pontos de vista, eu me mostrava um personagem ridículo. Todo mundo zombou de mim, por toda a parte e sempre; mas ninguém podia desconfiar que se havia alguém no mundo que soubesse melhor que todos os outros que eu era ridículo, esse homem era eu mesmo; também experimentei uma espécie de despeito, ao verificar que ninguém desconfiava disso. Nisso a culpa é minha: meu orgulho me impediu sempre de confessar o meu segredo. Esse orgulho não fez mais que crescer com a idade e se eu tivesse ido à presença de não importa quem para reconhecer que era ridículo, creio bem que nessa mesma noite teria estourado a cabeça com um tiro de revólver. Adolescente, quanto sofri, pensando que não poderia resistir, que de repente eu deveria confessá-lo aos meus colegas. Mas, chegando a moço, embora de anoa para ano ficasse cada vez mais certo de minha terrível singularidade, acabei, por uma razão ou por outra, por me tranqüilizar. Precisamente porque eu ignorava até aqui o porquê e o como. Talvez o devesse a esta imensa melancolia que se apoderou de minha alma, após uma circuntância infinitamente acima de mim, a saber: minha convicção, doravante bem firmada, de que aqui embaixo tudo é sem importância. Suspeitava disso há muito tempo, mas adquiri de súbito a certeza plena e completa, senti bruscamente que me seria indiferente que o mundo existisse ou que nada houvesse em parte alguma. Comecei a perceber e a sentir que, no fundo, nada existia para mim. Até aí, sempre me parecera que muitas coisas tinham existido antes de mim. Percebi nesse momento que nada existia anteriormente, ou antes, que não havia senão aparências. Pouco a pouco adquiri a convicção de que nunca haveria nada. Parei então de me irritar contra os homens e acabei quase não os notando mais. Esta disposição se manifestava nas circuntâncias mais banais da vida: por exemplo, acontecia-me, quando andava nas ruas, esbarrar nas pessoas. Não que estivesse absorvido em qualquer pensamento, eu já não pensava então nas coisas em que deveria pensar: tudo me era indiferente. Se pelo menos eu tivesse conseguido a solução dos problemas! Não tinha resolvido um único. E Deus sabe que não se tinham apresentado ao meu espírito! Mas, tudo me sendo indiferente, os problemas iam por água abaixo..."
Posted by Picasa

0 Comments:

Post a Comment

<< Home